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Por um Sporting fiel aos seus pergaminhos

Os desabafos de fiéis Leões

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Os desabafos de fiéis Leões

Vídeoárbitro e Audioárbitro - por Manuel Fernandes Silva

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Jorge Sousa errou. Esta é a frase da semana no futebol português. Não foi um erro técnico ou disciplinar, mas sim de vocabulário e de volume. O árbitro do jogo entre o Sporting B e o Real abriu as goelas, foi traído por um nível sonoro demasiado alto, de longa duração e muito projectado mediaticamente. Não havia necessidade de empurrar Vladimir Stojkovic para a baliza daquela forma, mas há muitas décadas que os campos de futebol deixaram de ser salões de chá.

No meio do relvado, no resfolegar da luta pela bola e com o cansaço a pesar nos ombros, a língua solta palavras que ferem os ouvidos menos preparados, mas que raramente ultrapassam a fronteira do jogo. No fundo, o futebol tem uma linguagem própria que é, tantas vezes, imprópria. A prova disto foi a reacção do guarda-redes e dos companheiros de equipa: Stojkovic acatou as indicações sem mais protestos e os jogadores do Sporting B não pareceram ficar demasiado abalados com aquele uso de palavras menos próprias e que – sublinho – deveriam ter sido evitadas pelo árbitro.

A condenação do que Jorge Sousa disse terá de ser consensual, mas a dimensão da pena aplicada e do julgamento público a que ficou exposto dificilmente merecerão a mesma unanimidade. O vernáculo intimidatório tem de ser expurgado do discurso dos árbitros, mas rapidamente se passou de um caso infeliz para a generalização perigosa, para o elogio da exemplaridade da pena e para a condenação de uma alegada (e alargada) prepotência dos juízes.

Em cerca de 20 segundos, Jorge Sousa disse cinco palavrões, mas se fizermos o exercício de os retirar do discurso, percebemos que houve pouco mais do que uma exaltada imposição de autoridade perante um jogador. Não é possível perceber se houve total exagero na forma como a exerceu, porque também não percebemos qual terá sido o detonador da reacção acalorada do juiz.

É evidente que Jorge Sousa não poderia sair disto sem mácula. Trata-se de um árbitro internacional e de uma referência do sector, com a obrigação de dar o exemplo em campo e em todos os jogos. Por outro lado, chegou a este momento respaldado por anos de uma carreira exemplar e sem antecedentes disciplinares. Se tudo isto tiver sido considerado na decisão de punir Jorge Sousa com três jogos de suspensão, não será impossível ficar com a ideia de que o fuzilamento público terá conseguido penetrar as sólidas paredes do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol.

Decidir rapidamente nem sempre é decidir bem e a pena mínima (um jogo de suspensão) serviria perfeitamente para punir as palavras que Jorge Sousa já estará arrependido de ter dito. Ao esticar até aos três jogos o castigo, o órgão presidido por José Manuel Meirim arriscou abrir uma frente de luta com a mais atacada, mas também mais unida das classes do futebol nacional. Daqui para a frente, o Conselho de Disciplina terá de ter ouvido muito atento e mão igualmente pesada em relação a todos os diálogos menos próprios nos estádios portugueses.

Nas primeiras três jornadas, o videoárbitro devorou quase todo o futebol que o campeonato teve para dar. Com o surpreendente aparecimento desta espécie de "audioárbitro", o espaço para falar do jogo será ainda mais reduzido. Mas, já que apareceu, então que venha para ficar. Os ouvidos agradecem.

 

Manuel Fernandes Silva da RTP.jpeg

 

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras 

 

 

 

 

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